Terapia

Narrativa

A Terapia Narrativa parte do entendimento de que as pessoas vivem suas vidas através das narrativas que elas elaboram sobre si mesmas, sobre outras pessoas, sobre o que lhes acontece e sobre o mundo em que vivem. Tais narrativas são construídas a partir do desejo de apreender e dar sentido às suas experiências através da linguagem.

 

O autor Michael White, psicoterapeuta e principal referência em meus estudos sobre a Terapia Narrativa, nos ajuda a entender como se dá o processo terapêutico nessa abordagem ao relacionar os conceitos de narrativa e experiência aos conceitos de mapa e território. Segundo o autor, o território será sempre mais amplo e mais complexo do que o mapa que o representa, já que este é parcial e não consegue incluir tudo aquilo que constitui o território. Por exemplo, o território do Brasil tem aproximadamente 8.514.876 km2, do qual fazem parte suas formações geológicas e hidrográficas, sua fauna, flora, população, cultura, política, economia, etc. Ao construir um mapa sobre o Brasil não é possível representá-lo em sua totalidade, seja pelo tamanho do mapa, milhares de vezes menor que o território, seja pela parcialidade de sua construção, que vai sempre destacar alguma característica específica do território. Ou seja, entende-se que um mapa demográfico do Brasil, construído a partir da intenção de um grupo de pessoas em entender as irregularidades na distribuição populacional entre os Estados brasileiros, não representa toda a complexidade deste território ao negligenciar aspectos como as peculiaridades culturais de cada Estado e seus principais pontos turísticos. Desta forma, legitima-se o mapa como uma versão verdadeira mas não a única versão possível do território. Um mapa geológico do Brasil, por exemplo, seria tão verdadeiro quanto o demográfico, mesmo priorizando em sua construção aspectos diferentes do país.

 

Relacionando este exemplo aos seres humanos, podemos pensar que ao longo de sua existência o sujeito vivencia experiências ricas e complexas, constituídas por múltiplos aspectos como: o contexto, os sentimentos, o tempo, as outras pessoas, as crenças e valores que o acompanham, etc. Ao construir narrativas sobre tais experiências, afim de dar sentido à elas, o sujeito não inclui todos os aspectos que as constituíram. Fatores como suas intenções, valores e os entendimentos que já fazem parte de seu repertório de narrativas, influenciarão na forma como ele construirá sua narrativa sobre a experiência, convidando-o a dar visibilidade à alguns aspectos e a ofuscar outros. Logo, entende-se que a experiência é sempre mais rica e mais complexa do que a narrativa construída sobre ela, e que esta será uma versão verdadeira mas não a única versão possível sobre a experiência. Por exemplo, dois colegas de trabalho atrasam a entrega de um relatório importantíssimo pedido por seu chefe, que então decide chamá-los para uma reunião. Um destes funcionários havia sido contratado há pouco tempo, depois de ter sido demitido de seu emprego anterior, enquanto o outro já trabalhava na empresa há anos e estava prestas a ser promovido. O primeiro chega na reunião se sentindo tenso, enquanto o segundo, que já passou por várias conversas como esta, se sente tranquilo. Enquanto o chefe fazia críticas ao trabalho da dupla, o primeiro funcionário ficou atento aos seus gestos e tom de voz, entendendo-os como indicativos de que seria demitido já que o chefe estava muito nervoso e desapontado com o seu desempenho. Já o segundo funcionário, que conhecia bem os trejeitos de seu chefe e estava seguro de que continuaria na empresa, ficou bem atento às críticas apresentadas durante a conversa, imaginando que elas poderiam ajudá-lo a melhorar seu desempenho no trabalho e a conseguir uma promoção de cargo. Mesmo imaginando que estes funcionários construam narrativas bem diferentes sobre a reunião, entendemos que ambas são versões igualmente legítimas e verdadeiras sobre experiência.

 

Ao buscar a psicoterapia, o indivíduo costumeiramente tem vivido sua vida a partir de narrativas empobrecidas e limitantes sobre sua própria identidade, perdendo seu senso de autocompetência para lidar com aquilo que ele considera como um problema. Voltando à metáfora dos mapas, é como se o sujeito estivesse viajando por sua vida sempre guiado por um mesmo mapa e, ao percorrer tantas vezes um mesmo caminho, passa a achar que este é o único possível. Assim, partindo da ideia de que as experiências vividas pelo cliente são sempre mais ricas e complexas do que as narrativas limitantes que ele traz à terapia, o terapeuta se propõe a investigar tais experiências com a curiosidade de um viajante que chega à um novo país, buscando dar visibilidade à aspectos das mesmas que até então foram negligenciados. A partir desta investigação, o terapeuta compartilha com o cliente a construção de novos mapas que permitem a exploração de caminhos inéditos. Nas conversações propostas no contexto terapêutico, o terapeuta se compromete com a ampliação das narrativas e dos entendimentos do cliente sobre a sua identidade, sobre os problemas que vive e as sobre suas possibilidades ao lidar com eles. Entende-se que ao re-descrever as narrativas antes cristalizadas sobre si e sobre a sua vida, o cliente é convidado à resgatar seu senso de auto-agência para lidar com seus dilemas em colaboração com outros, expandindo suas possibilidades existenciais e ampliando seu olhar para novos futuros possíveis.

 

Neste vídeo, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie nos sensibiliza para os perigos que corremos ao limitarmos nossas narrativas à uma única história: